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Plantas medicinais no Peru

November 29, 2017

 

 

Pôr-do-sol na janela a minha esquerda. Pinta de dourado a mim e a Karol. Na televisão do ônibus – talvez um pouco mais alto do que gostaríamos – velozes e furiosos em espanhol.


E assim chegou a hora de se despedir do Peru. Talvez escrever sobre o que revolveu a cabeça esses dias. Analisar como a maioria das casas aqui não são completamente pintadas, exibindo suas estruturas de tijolo cru e barro, às vezes não se dando nem ao trabalho da argamassa. Lembrar do pano multiuso mágico-espiritual que as cholas usam. As cholitas são as pachamamas em forma de mulher montanha. As jovens, mães e anciãs de bochechas rosadas e trabalhos nas mãos. São as mulheres de cabelos trançados que caracterizam parte do feminino tradicional do Peru. Ironicamente, quando o termo chola surgiu, possuía sentido pejorativo, usado para as mulheres nascidas da mistura entre nativos e estrangeiros ou para aquelas que aderiam a traços da cultura colonizadora. Hoje são justamente as maiores representantes da cultura andina. Como escrevi antes, as cholas possuem panos mágicos, os chamados awayos, usados para levar as colheitas, as flores, as crianças e os próprios Andes nas costas. Elas carregam a vida dentro de tecidos estampados de cores encantadas.
Cores. Cores psicodélicas por toda parte. Rosas, verdes e laranjas gritantes. Roxos, azuis e amarelos do astral. As cores do céu. Produção constante de suspiros. O velho maravilhoso da rodoviária de Cusco com seu poncho terminado em pompons coloridos me fez repensar na monotonia não questionada das cores das vestimentas urbanas. É preciso repensar tudo mesmo. Que bom que temos as cores das músicas peruanas para nos ajudar no repensar, suas músicas cheias de flautas soprando flores.
Flores. Cusco, sua água florida e seu palo santo. Em nosso primeiro dia de Peru, chegando na hospedagem, nossos narizes foram capturados, a recepção estava embriagada de palo santo. O moço com cara de mal encarado, roupas velhas e desgastadas cheirava à água florida. Flores em pequenos jardins. Flores mágicas revestindo as gigantes pedras de Lima. Lírios companhias de riachos serpenteando as montanhas. As flores são apenas a parte mais colorida do que caracteriza muito da cultura cusquenha e andina: as plantas.
Plantas. Elas não apenas estão por toda parte exibindo-se em jardins. Elas estão vivas nas mãos das mercadoras. Estão vivas nas mãos dos cuidadores. Uma das cholas que mantém essa tradição viva nos contou como as plantas são a base de toda a saúde. Como esses conhecimentos foram passados de geração em geração atravessando os incontáveis desafios do tempo. Resistência que parece também brotar da terra. E, assim, as plantas aqui também são protagonistas.
No mercado nos indicam todas as possíveis vias de uso de cada uma delas; suas doses, maneiras de ingestão, infusão, usos tópicos, usos espirituais, etc. Informações que demonstram as relações íntimas mantidas com o reino vegetal. Conseguem adentrar melhor os mistérios e curas das plantas aqueles que verdadeiramente as respeitam. Com o respeito, vem a convivência harmoniosa e, dessa forma, as plantas habitam a cidade, sejam elas psicoativas ou não. As estimulantes folhas de coca ou os famosos enteógenos cactos de São Pedro também são encontrados nas feiras e nos mercados. É válido ressaltar que não há diferenciação com estas por causarem alterações à consciência. Medicinas são medicinas, contanto que se saiba usá-las, não existem motivos reais para mantê-las à parte da sociedade.  Elas ocupam as mesmas prateleiras que as demais plantas e fitoterápicos e não produzem estranhamento para os moradores dali. Ainda assim,  com muita ênfase, nos foi dito que diferentes objetivos com substâncias requerem diferentes formas de uso, portanto, se quiséssemos utilizar uma significativa dose de San Pedro para buscar experiências místicas, isso deveria ser feito em um ritual com um xamã com conhecimento sobre a planta e sobre seus efeitos. Se a intenção for a médica/terapêutica, microdoses podem ser usadas diariamente com diferentes resultados para promoção de saúde e o consumo pode ser feito de variadas formas.

Optamos por não ligar para os telefones de xamãs que nos foram passados na tentativa de evitar o turismo espiritual que nem sempre condiz muito com o que acreditamos. Mas “chachamos” as folhas de coca para diminuir os efeitos da altitude, por exemplo. Uma vez em novas naturezas, com novos desafios (como acostumar o corpo a estar a 3500m de altitude) nada mais justo que estejamos em contato com as plantas auxiliadoras da flora local. Que saibamos escutar os ensinamentos das plantas antes de acatar seus estigmas.

Ali aprendemos, mais uma vez, sobre a importância do consumo de substâncias dentro de contextos, apoiados por redes ou comunidades que carreguem seus usos tradicionais. Com significados devidamente atribuídos a seus consumos, as plantas ensinam e podem ajudar a aprender. Aprender a desconstruir, por exemplo,  percepções etnocêntricas que geram preconceitos, capazes de se espalhar por grande parte do globo. Lembrando sempre do privilégio que é possuir essas ferramentas da natureza no processo de “desorganizando para se organizar”. Loucura pensar que, para as cholitas das montanhas, provavelmente as desconstruções são outras . Que privilégio podermos compartilhar de seus espaços durante esses dias. Gracias, Perú <3

E a maconha nesse contexto?

Apesar de algumas pessoas com quem conversamos afirmarem que seu uso existia mesmo em sociedades pré-incas, ela ainda é considerada uma planta não autóctona e, talvez, por isso, quando comparada com outras plantas de poder, foi mais facilmente associada a aspectos negativos, “demoniados”, como dito por muitos a quem perguntamos. Constatamos muitas associações negativas feitas entre a planta e o crime, a violência e a influência externa, tanto em grandes centros como em regiões campesinas. Apesar disso, o Peru segue a tendência mundial e conta com importantes movimentos que buscam mudar a percepção dessa planta. Conversamos com mães e outros ativistas do Buscando Esperanza e Planta Madre, que lutam pela garantia ao autocultivo e aos cultivos coletivos, acreditando serem essas soluções reais para o contexto peruano. Ainda que o movimento por lá tenha ganhado força há pouco tempo, desde o início de 2016, conseguiram significativa atenção e consequentes mudanças, como a aprovação pela Comissão de Defesa do Congresso sobre o projeto de lei para o uso medicinal da cannabis. Entretanto, como se vê em outros países sul americanos, há a tentativa de limitar a realização dessa atividade justamente às pessoas que buscavam reprimi-las e de condicionar seus benefícios a um aval médico. Dessa maneira, as pessoas que vêm tentando resgatar e difundir seus benefícios são excluídas, e seus esforços e conhecimentos não são reconhecidos e aproveitados da melhor maneira. Exemplos dessa situação são  as mães que desobedeceram e aprenderam a cultivar e produzir o remédio de seus filhos, apesar das dificuldades impostas pela proibição.

A lei foi assinada na semana em que estávamos em Lima e as expectativas eram altas. Foi considerada um avanço por reconhecer os potenciais terapêuticos da maconha e garantir legalmente seu uso. Isso traz alívio para inúmeras famílias que faziam o uso na clandestinidade, temendo as consequências legais desse fato. Entretanto, ainda é necessário garantir o autocultivo e os cultivos coletivos. Além da autonomia e do fator financeiro, é preciso considerar o efeito “entourage”, ou seja, a sinergia que ocorre  entre as diferentes substâncias que a planta contém proporciona um efeito diferenciado em relação ao de substâncias isoladas, como o CBD.

 

 

 

Ativistas das associações Planta Madre e Buscando Esperanza em Lima, novembro 2017

 



Para acompanhar como anda a situação da cannabis no Peru,

Buscando Esperanza


Planta Madre 

Revsista Pitay
 

 

 

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