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  • Mulheres Cannábicas

Maconha e cuidado

Ana Cavalcanti




Esse tema é tão diverso e pode significar tantas coisas diferentes, que só fez sentido pra mim escrever um texto com essa temática, caso ele partisse da minha trajetória, dos meus caminhos. Assim posso falar tranquila.


A maconha me trouxe o cuidado de tantas formas! Pra abrir os caminhos dos cuidado, nossa relação começou quando eu comecei a fazer seu uso na adolescência. Eram momentos meus, deliciosos, com amigos, com risadas. Passei a questionar a realidade, questionar status quo e tantas outras coisas que eu aprendi como certas. Passei a reparar nas alterações e percepções do corpo, me observar, me sentir, me perceber, sentir cheiros e perceber cores. A ganja foi e continua sendo uma das principais ferramentas pro meu autoconhecimento. Já discutimos em textos anteriores como se conhecer é o primeiro passo pra se cuidar, porque 1) cada um se cuida de um jeito e precisamos aprender ouvir nosso corpo e porque 2) aprendemos um modelo de cuidado que nem sempre se adequa às nossas necessidades. Até hoje meus momentos mais especiais estão relacionados a fumar um sozinha. Em silêncio olhando a fumaça à luz de velas, enquanto trabalho e tomo um café, em rituais, enquanto faço um banho de assento, quanto me sinto só, pra ler ou escrever.


A cannabis foi também porta de entrada para inúmeras experiências incríveis. Viajei por várias cidades e países por causa dela, conheci diversas pessoas por causa dela.


Minha casa não era um lugar aberto para que eu conversasse sobre minhas curiosidades e experiências com a maconha. Então, percorri esse caminho sem o auxílio e orientação da minha família. Passei por várias situações desagradáveis, outras absurdas. De policiais violentos e abusivos a "amigos" que, por meio das substâncias, buscam manter as relações poder. Qual a sensação que passa no nosso corpo quando temos que ir fazer um corre sozinha? Quantas situações abusivas se tornam possíveis só por não ter outro homem com você na biqueira? Quantas vezes já nos passaram maconha em menor quantidade do que a combinada porque somos mulheres? Frequentemente senti meu conhecimento e minhas ideias sendo menosprezadas e ignoradas, fosse quando eu tinha 16 anos e nenhum amigo me deixava bolar, fosse dentro da universidade em grupos de estudo por professores. Ser mulher no mundo das drogas, ser maconheira, traz várias vulnerabilidades e riscos. Tive diversos problemas em casa, saí de casa quando minha mãe descobriu sobre meu uso. Desespero, desavença, quilômetros de distância. O cuidado foi o argumento utilizado pra arquitetar o plano de me resgatar do maligno mundo das drogas. Percebi com esse movimento que, de fato, não sabia muito sobre essa planta para além das impressões e sensações que me causava. Isso me deixou bem curiosa. Apesar das tentativas de cuidado daqueles que me amavam, me senti controlada, presa, errada. E apesar do amor, não recebi essas ações como cuidado e, sim, como controle.


Além disso, percebi que se eu quisesse continuar sendo maconheira e ter uma vida saudável, seria necessário tomar certos cuidados na relação com essa plantinha que ganhou meu coração <3<3<3. A mistura com tabaco, a frequência, onde e com quem fumar, o que fumar ainda são questões que diariamente precisam da minha reflexão e que considero fundamentais para manter um uso que seja mais proveitoso, engrandecedor e gostosim. Não gosto de me sentir mal com a maconha, quando isso acontece entendo como um sinal, uma conversa dela comigo. Vejo como uma oportunidade de me conhecer um pouco melhor.


Então, assim que entrei na universidade, comecei a estudar essa planta e seus mil desdobramentos com mais seriedade e atenção. A informação é um passo fundamental para podermos nos cuidar. Cuidado tem a ver com liberdade, que tem a ver com ter acesso às informações necessárias para que cada um se responsabilize pelas suas escolhas de cuidado. Conheci o potencial terapêutico dessa erva para diversas pessoas, aprendi sobre nosso sistema endocannabinóide e sua relação com os processos fisiológicos do corpo, com meu sistema sexual e reprodutor. Percebi como a cannabis trouxe o cuidado também para diversas famílias. Aprendi que o cuidado é comunitário.


Comecei a cultivar e essa noção de cuidado se multiplicou. Entender o processo, a diversidade de plantas e efeitos, me relacionar com a plantinha, colocar a mão na terra. Ela me abriu pra maravilha que é plantar, estar na natureza, conhecer as plantas. Através dela comecei a me dar conta do tamanho da injustiça da nossa política de drogas, da quantidade de pessoas assassinadas e encarceradas em nome dela. Até hoje ainda agarro na mão dela toda vez que preciso me aprofundar nessas questões. Na nossa relação, a percebo como uma planta professora, que me ensina as lições mais valiosas e importantes. O fato de ela ser uma planta professora, uma planta de poder, exige também muita responsabilidade.


É nessa pegada “controle que tenta se fantasiar de cuidado” que a gente tem uma das maiores guerras vividas continuamente em nosso território. A Guerra às Drogas ganha sua força na ilusão de que estamos proporcionando cuidado, individual e coletivo, ao evitar que nossas pobres criancinhas se percam na mão dos mais terríveis vilões, os traficantes.


Engraçado é perceber quem são considerados esses traficantes. É quem paga a conta dessa guerra. Nada de políticos, pessoas com dinheiro. Quem é preso? Quem é morto? Quem tem seus filhos tirados à força? Em nome do “cuidado“ a gente faz muitos absurdos. Por isso, o cuidado precisa pressupor autonomia, precisa ter um componente ativo de cada indivíduo.


Dessa forma, a maconha me trouxe uma nova percepção de cuidado coletivo. Me fez pensar sobre questões de saúde, de justiça, de educação, de segurança. Apresentou-me pautas essenciais que não faziam parte da minha rotina, como as questões raciais, de gênero, de população de rua, de loucura e saúde mental. A partir da maconha eu passei a ter um olhar integral sobre o meu cuidado interno e sobre o cuidado externo. Entendi que para que eu queira que as coisas sejam cuidadas, preciso me responsabilizar pelo cuidado delas. E por isso a importância de compartilhar as responsabilidades de cuidado, para que isso seja possível.


Entendi que ajudar alguém a refletir sobre um possível uso problemático com a ganja era também cuidar de mim e de tudo que eu amo. Refletir sobre a minha própria relação com a planta também é cuidar de mim. Então vejo como ela traz um novo modelo de cuidado, que se constrói coletivamente, a partir das nossas necessidades reais, e não de suposições de quem não vive esses mesmos problemas. Que considera o ambiente, o planeta e todos os seres que vivem nele. Por isso, precisamos de um modelo associativo, com base na natureza e na troca de informações e conhecimentos. Desse jeitim, a gente garante que nesse caminho com a cannabis a gente siga aprendendo e ressignificando o que é cuidado.


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Mulheres Cannábicas do Brasil – 2020 – site por emily bandeira